Multipotencial: como escolher um projeto sem abrir mão de quem você é

Ser multipotencial não é dispersão. É uma forma diferente de operar. Entenda o que paralisa quem tem muitos interesses e como escolher um projeto sem abandonar quem você é.

Existe um tipo de paralisia ninguém fala direito. Ela não vem de falta de ideias, não vem de preguiça, não vem de medo do fracasso no sentido clássico. Ela vem de ter ideias demais e sentir que escolher uma significa matar todas as outras.

Se você já passou pela experiência de ter dez projetos possíveis na cabeça e não conseguir avançar em nenhum, provavelmente conhece bem essa sensação. E se alguém já te disse “é só escolher uma coisa e focar”, é provável que essa orientação tenha resolvido absolutamente nada, porque o problema não é falta de foco. O problema é que você não é o tipo de pessoa que funciona com uma coisa só, e isso não é um defeito.

Existe um nome para isso: multipotencial.


O que é ser multipotencial

O termo foi popularizado pela palestrante, pesquisadora e escritora Emilie Wapnick para descrever pessoas que têm múltiplas áreas de interesse genuínas e que não se sentem satisfeitas ao restringir sua vida intelectual e criativa a um único campo. Não é dispersão. Não é falta de comprometimento. É uma forma diferente de operar no mundo.

A maioria dos sistemas foi construída para especialistas. Há uma narrativa dominante de que a profundidade numa única área é o único caminho legítimo para construir autoridade, ganhar dinheiro e ser levada a sério. Quem não se encaixa nesse modelo muitas vezes passa anos achando que o problema é dela, quando na verdade o problema é o modelo.

Mas há uma diferença importante entre ser multipotencial e usar isso como justificativa para não decidir nada. E essa diferença é o que importa quando você quer construir um projeto digital real.


O que a multiplicidade faz com a sua decisão

Quando você tem muitas áreas de interesse genuínas, escolher uma delas para desenvolver em projeto carrega um peso que quem tem um único interesse nunca vai entender. Porque a escolha não parece estratégia. Parece perda.

O que acontece na prática é que a mente multipotencial não consegue tratar a decisão como algo reversível. Cada interesse parece uma versão possível de si mesma, e escolher um deles soa como abandonar as outras. Então a pessoa fica circulando entre as possibilidades, desenvolvendo todas um pouco e nenhuma o suficiente, esperando que apareça uma certeza que resolva o dilema sem exigir nenhuma renúncia.

Essa certeza não aparece. Porque o que paralisa não é a dificuldade de escolher. É a crença de que a escolha é permanente e que o que fica de fora desaparece para sempre.


Escolher um projeto não é escolher uma identidade para sempre

Aqui está o que ninguém costuma dizer com clareza suficiente: começar um projeto digital num determinado tema não apaga os outros interesses. Não te torna especialista em apenas aquilo. Não te prende num nicho para o resto da vida.

O que ele faz é dar um lugar concreto para você existir na internet enquanto descobre como esses interesses se relacionam e qual deles tem mais tração com o mundo real.

Tenho uma amiga que se formou em ciências da computação, faz ilustração, está escrevendo um livro infantil, toca violão, canta e criou um clube de estudos de inglês para pessoas criativas. O projeto dela não apagou nenhuma dessas outras partes. Ele foi o lugar onde a intersecção entre criatividade, aprendizado visual e a experiência de viver como imigrante ganhou uma forma que outras pessoas conseguem acessar. A computação informou a estrutura, a ilustração informou a estética, a vivência de aprender inglês fora do Brasil informou o conteúdo. O projeto único não substituiu a multiplicidade, ele foi onde ela ganhou forma.

Tenho outra amiga, formada em educação física, com mestrado, ex-ginasta, que hoje trabalha no departamento de estudantes internacionais de uma universidade aqui nos Estados Unidos e nos fins de semana mantém uma barraca de comida brasileira numa feira local. São territórios que parecem não ter nada em comum. Mas todos eles falam de pertencimento, de levar algo de um lugar para outro, de criar conexão através do que você sabe fazer. A multiplicidade não é incoerência. É um argumento que ainda está se formando.

  Qual a diferença entre ideia e projeto digital

Casos mais conhecidos seguem a mesma lógica

A Mari Krieger se formou em biologia, trabalhava como DJ e, quando a pandemia fechou as casas noturnas, ela começou a fazer vídeos de humor sobre ciência, juntando as duas coisas de um jeito que nenhum especialista isolado teria feito.

O Tempero Drag nasceu em 2015 como um canal de culinária no YouTube. A personagem Rita Von Hunty, criada pelo ator e professor Guilherme Terreri, propunha fazer receitas veganas parodiando apresentadoras clássicas como Palmirinha e Ana Maria Braga, mas com humor corrosivo e análise política. Culinária, drag, sociologia e teatro num único projeto que não existia em nenhuma caixa previamente definida.

Nenhum deles esperou resolver a multiplicidade antes de começar. Eles escolheram um ponto de entrada.


Como eu cheguei até aqui

Me formei em design de moda, e foi essa formação que me ensinou a ver o mundo de outra forma, a pensar em processo, a entender que a estética não é decoração, é comunicação. A partir disso, entrei no marketing digital como redatora, depois como analista, e em seguida abri minha própria agência do zero, onde precisava dar conta de estratégia, produção de conteúdo, identidade visual, desenvolvimento de sites e gestão de tráfego, às vezes tudo ao mesmo tempo, para clientes de segmentos completamente diferentes.

O que faltava era uma linguagem para organizar tudo isso. Ela veio quando fiz minha formação em UX/UI design, que foi onde as peças finalmente se encaixaram: entender como as pessoas pensam, como elas tomam decisões, como uma ideia precisa ser estruturada para que outra pessoa consiga percorrê-la sem se perder. Foi a partir daí que comecei a entender que o que eu sabia fazer não era só executar projetos digitais. Era ajudar pessoas a sair do estágio em que a ideia ainda não tem forma.

Quando as pessoas começaram a me perguntar como começar um projeto na internet, percebi que as respostas já estavam em mim. Não porque tinha estudado uma fórmula, mas porque tinha vivido cada etapa que elas descreviam. O Organizando o Caos não existe apesar da minha multiplicidade. Ele existe por causa dela.


Como escolher então?

Não existe uma fórmula. Mas existe um critério que tende a funcionar melhor do que “siga sua paixão” ou “escolha o que tem mais mercado”.

O critério é:

Paixão não é garantia de sustentabilidade. O que sustenta um projeto no médio prazo não é a paixão no pico, é o interesse no mínimo. E vale observar também: por qual desses temas as pessoas já te procuram? Não necessariamente para comprar algo, mas para perguntar, para pedir opinião, para contar o problema delas. Essa é uma informação relevante sobre onde você já tem alguma autoridade percebida, mesmo sem ter nenhum projeto formal.


O que você não precisa abrir mão

Você não precisa abrir mão dos outros interesses. Você precisa, por ora, colocar um deles na frente.

Existe uma diferença entre “deixar de ser quem você é” e “decidir por onde começar”. Escolher um projeto não apaga os outros interesses. Ele apenas dá um ponto de partida.

Ser multipotencial é uma vantagem real quando você consegue usar essa capacidade de conectar áreas diferentes para criar algo que especialistas puros dificilmente criariam. Mas essa vantagem só se manifesta quando você dá a ela um lugar para existir.

E esse lugar começa com uma escolha, ainda que imperfeita, ainda que revisável.

Chris Oliveiras

Autora

Chris Oliveiras

Escrevo sobre o que acontece entre ter a ideia e conseguir colocar ela no ar. Criadora do Método do Caos ao Começo, para quem quer tirar a primeira versão do papel em 7 dias.

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