“Só não cresce quem não quer”? Por que essa frase ignora de onde cada pessoa começa

Por que a frase "só não cresce quem não quer" convence tanto, o que ela deixa de fora e como olhar para o seu ponto de partida antes de seguir uma fórmula.

Se você já passou algum tempo procurando como divulgar o próprio trabalho na internet, provavelmente cruzou com esta frase: “só não cresce quem não quer”. Ela aparece na legenda de quem vende curso, no vídeo de quem mostra o faturamento do mês e no comentário de quem quer encerrar uma discussão. Às vezes vem com outra roupa (“é só fazer”, “só depende de você”, “quem quer dá um jeito”), mas a ideia por trás é a mesma.

Para quem já tentou e não viu o resultado aparecer, essa frase pesa. Ela não fala só que é possível crescer. Nas entrelinhas, ela diz que, se você não cresceu, foi porque não quis o suficiente.

Eu trabalho com marketing digital desde 2014 e essa é uma das frases que mais me incomodam no meu próprio mercado. Neste texto eu quero explicar por quê, contar de onde eu parti e mostrar um jeito mais honesto de olhar para o seu ponto de partida antes de seguir a fórmula de outra pessoa.


Por que essa frase convence tanto

Ela convence porque parece lógica. Alguém seguiu um método e chegou lá, então o método funciona. Se você seguiu e não chegou, então o problema foi você: faltou esforço, vontade ou disciplina.

O problema começa no que a gente não consegue ver. Na internet, quase tudo o que aparece é recorte. Quem conseguiu mostra o print, o depoimento, o antes e depois. Quem tentou do mesmo jeito e não conseguiu raramente posta sobre isso, então essas histórias não chegam até você. O resultado é uma vitrine cheia de casos de sucesso, que dá a impressão de que todo mundo que tenta consegue.

E mesmo os casos de sucesso chegam pela metade. O print mostra o faturamento, mas não mostra quantas horas por dia a pessoa tinha livres, quanto ela já tinha guardado para investir em anúncio, quem compartilhou os primeiros posts dela ou há quantos anos ela trabalhava com aquilo antes de começar a postar. Nada disso é segredo. Só não cabe no print.


A internet parece igual para todo mundo

Tem uma característica da internet que reforça essa ideia. Criar uma conta é de graça e leva dois minutos. Qualquer pessoa pode abrir um perfil, publicar um vídeo ou escrever um texto. Olhando assim, parece que todo mundo larga da mesma linha.

Só que a conta gratuita é a única parte igual. O resto muda de uma pessoa para outra:

  • O tempo. Quem atende cliente o dia inteiro, cuida da casa ou de alguém da família não tem as mesmas horas livres de quem trabalha só com conteúdo.
  • O dinheiro. Testar anúncio, assinar uma ferramenta, pagar alguém para editar vídeo. Tudo isso acelera o processo, e nem todo mundo consegue investir sem apertar o mês.
  • O conhecimento. Quem já trabalhou com marketing, design ou comunicação entende coisas que outra pessoa vai levar meses para aprender sozinha.
  • A rede de contatos. Ter gente que comenta, compartilha e indica faz diferença justamente no começo, quando quase ninguém te conhece.
  • O quanto você pode e quer se expor. Em algumas profissões, mostrar a rotina é natural. Em outras (ou em algumas fases da vida), isso simplesmente não faz sentido.

Cada pessoa chega com uma história, uma vivência e um conhecimento diferentes. Uma fórmula que ignora tudo isso pode até ter funcionado para quem ensina, mas não tem como garantir o mesmo resultado para quem está começando de outro lugar.


De onde eu parti

Acho justo contar a minha parte, até porque, vista de fora, a minha trajetória poderia servir de prova de que basta querer.

Eu trabalho desde os 17 anos. Fiz faculdade de Design de Moda e só consegui estudar porque fui bolsista do ProUni, já que sem a bolsa eu não teria como pagar. O computador em que comecei a trabalhar também não era meu, era emprestado.

O meu primeiro contato com o digital foi durante o meu TCC. O trabalho era em grupo e eu fiquei responsável por criar um blog, sem saber nada do assunto. O que me salvou foi encontrar gente na internet explicando o que sabia, de graça, respondendo a dúvidas em comentários de outros blogs e fóruns. Eu aprendi perguntando para pessoas que eu nunca tinha visto e que não ganhavam nada para me responder.

Depois da faculdade, comecei como redatora e, desde 2014, trabalho com marketing digital, área em que também fiz um MBA em Gestão de Marketing. Passei por grandes empresas de tecnologia e tive a minha própria agência de marketing por quase quatro anos, atendendo mais de vinte clientes ao mesmo tempo, quase todos profissionais de diversas áreas que trabalhavam sozinhos.

Então, quando alguém diz que só não cresce quem não quer, eu penso em tudo o que precisou existir para eu chegar onde estou: uma bolsa de estudos, um computador emprestado e muita gente me ensinando no caminho. Eu me esforcei, sim. Mas o esforço, sozinho, não teria pago a faculdade, não teria me emprestado um computador e não teria me ensinado a criar um blog. Ele precisou de condições para dar resultado e boa parte delas não dependia apenas de mim.

Hoje o computador é meu. A companhia no trabalho vem de brinde 🐈

O curso caro que eu comprei

Mesmo com anos de experiência, eu também já acreditei numa fórmula.

Não muito tempo atrás, comprei um curso caro de um nome conhecido do mercado, com mentoria incluída para colocar o meu produto à venda. Os depoimentos mostravam pessoas de áreas e rotinas completamente diferentes chegando ao mesmo resultado, e a mensagem era clara: se você seguir tudo à risca, chega lá também.

→  Por que é tão difícil criar conteúdo para o próprio negócio (e como destravar)

Eu segui. Investi em anúncios, montei página de vendas, configurei automações e cheguei a fazer algumas vendas. Aprendi bastante coisa e foi dali que nasceu a primeira versão do método que eu uso hoje. Mas fui esbarrando em limites que os depoimentos não mostravam.

O maior deles era o excesso. Era tanto conteúdo que eu não sabia por onde começar. A mentoria existia justamente para dar um caminho, só que a minha dúvida vinha antes de qualquer caminho: eu ainda não tinha definido direito o meu produto, nem sabia se ele fazia sentido. O suporte, feito por mensagem, não dava conta desse tipo de dúvida. E as aulas não acompanhavam as mudanças das ferramentas, que, como a gente sabe, mudam o tempo todo.

Hoje eu não acho que o curso era ruim nem que quem ensinava estava mentindo. O que eu percebi é que eu estava terceirizando uma decisão que era minha. Achei que bastava aplicar o que me ensinaram para ter o mesmo resultado e deixei de olhar para o que fazia o meu caso diferente: o meu jeito de falar, o que eu vendo, para quem eu vendo, o dinheiro que eu podia investir e o tempo que eu tinha.


E quem conseguiu, então?

Vale deixar uma coisa clara: quem cresceu na internet trabalhou, e muitas vezes trabalhou muito. Esforço conta. O que eu questiono é a ideia de que ele é a única coisa que conta.

Também não estou dizendo que o ponto de partida decide tudo e que não adianta tentar. Isso seria só trocar uma frase pronta por outra. Olhar para o contexto serve para escolher um caminho que caiba na sua vida, em vez de você se cobrar por não conseguir seguir o caminho de outra pessoa.


Como olhar para o seu ponto de partida

Olhando para trás, foi isso que me faltou quando comprei aquele curso: parar e olhar para o meu ponto de partida antes de seguir o caminho de outra pessoa. Se quiser fazer esse exercício agora, estas são as perguntas que eu teria respondido:

antes de seguir qualquer método

De onde você parte?

Responda pensando na sua semana real. As respostas ficam guardadas só neste navegador e você pode baixar tudo como imagem no final.

Pense na semana cheia de trabalho, não na semana ideal.

Pode ser zero, e tudo bem. Isso muda o caminho, mas não impede de começar.

Escrever, gravar, editar vídeo, mexer em site, montar anúncio.

Clientes antigos, colegas de profissão, pessoas que já te indicaram. Esse grupo costuma ser o começo mais rápido.

Dá pra divulgar o trabalho sem expor a rotina, mas essa escolha muda os formatos que fazem sentido para você.

Suas respostas ficam guardadas neste navegador.

Com essas respostas em mãos, fica mais fácil avaliar a próxima promessa que aparecer no seu feed. Quando surgir um método novo, pergunte também:

  • De onde partiu quem está ensinando? Que tempo, dinheiro e conhecimento essa pessoa tinha quando começou?
  • Os depoimentos mostram o contexto de quem conseguiu ou só o resultado?
  • O método funciona com o orçamento e as horas que você tem ou parte de condições que não são as suas?
  • Ele explica por que as coisas funcionam ou só manda repetir passos? Passo a passo envelhece rápido, porque as plataformas mudam o tempo todo.

Se as respostas mostrarem que o método foi pensado para outra rotina, você não precisa jogar tudo fora. Dá pra aproveitar o que serve e adaptar o resto. Um post por semana feito com constância costuma render mais do que tentar postar todos os dias e desistir no segundo mês. E vale lembrar que o seu perfil numa rede social é só uma parte da sua presença na internet, como eu explico em O Instagram não é o seu negócio.


Ninguém chega sozinha

A internet que me ensinou era um lugar onde quem sabia alguma coisa explicava para quem chegava. Isso ainda existe, mas hoje divide espaço com promessas que tratam todo mundo como se todos tivessem saído do mesmo lugar.

Por isso eu prefiro explicar como as coisas funcionam em vez de vender uma fórmula. Quando você entende o que acontece por trás de uma plataforma, consegue decidir o que faz sentido para o seu caso, com o tempo, o dinheiro e o jeito que você tem.

Se quiser continuar por esse caminho, o Manual da Não Influencer reúne essas decisões em dez capítulos curtos: em quais redes estar, se vale a pena ter um site, como explicar o seu trabalho em poucas palavras, quanto mostrar da sua vida e que ritmo cabe na sua semana. É gratuito.

Material gratuito

Manual da Não Influencer

Dez capítulos curtos sobre as decisões que vêm antes do próximo post, pra divulgar o seu trabalho na internet sem depender só das redes sociais.

Receber o Manual →
Brand to Content | Sistema editorial com IA

Grave um áudio contando a semana. Receba posts, emails e roteiros prontos, no seu jeito de falar.

Brand to Content é um sistema editorial com IA que aprende sua marca uma vez e transforma o que acontece no seu negócio em conteúdo, semana após semana, sem você recomeçar do zero toda vez.

  • ✓Sua marca vira contexto permanente pra IA consultar
  • ✓Uma reunião semanal por áudio decide o que vira conteúdo
  • ✓Você recebe posts, emails e roteiros prontos pra analisar e publicar
Ver como funciona
áudio ✦ conteúdo

Uma conversa por semana. Vários formatos prontos, todos no seu jeito de falar.

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Saiba mais na Política de Privacidade.